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terça-feira, 26 de outubro de 2021

As lésbicas acusadas de transfobia por recusarem sexo com mulheres trans

 Blog do Alex Ramos

Uma lésbica é transfóbica se ela não quer fazer sexo com mulheres trans? Algumas lésbicas dizem que estão sendo cada vez mais pressionadas e coagidas a aceitar mulheres trans como parceiras - depois rejeitadas e até ameaçadas por falarem abertamente sobre isso. Várias falaram à BBC, junto com mulheres trans que também estão preocupadas com o assunto.

Aviso: a história contém linguagem forte

"Ouvi uma pessoa dizer que preferia me matar do que (matar) Hitler", disse Jennie*, de 24 anos.


"Disse-me que me estrangularia com um cinto se estivesse em uma sala comigo e Hitler. Isso foi tão bizarramente violento, só porque eu não faço sexo com mulheres trans".

Jennie é uma mulher lésbica. Ela diz que só sente atração sexual por mulheres biologicamente femininas e com vaginas. Ela, portanto, diz que só tem relações sexuais e relacionamentos com essas pessoas.

Jennie não acha que isso deveria ser controverso, mas nem todos concordam. Ela foi descrita como transfóbica, fetichista genital, pervertida e "terf" (feminista radical transexcludente).

"Há um argumento comum que tentam usar que diz: 'E se você conhecesse uma mulher em um bar e ela fosse muito bonita e você se desse muito bem e fosse para casa e descobrisse que ela tem um pênis? Você simplesmente não estaria interessada?'", diz Jennie, que mora em Londres e trabalha com moda.

"Sim, porque mesmo que alguém pareça atraente no início, você pode sair disso. Eu simplesmente não possuo a capacidade de ser sexualmente atraída por pessoas que são biologicamente masculinas, independentemente de como elas se identifiquem."

Várias pessoas entraram em contato comigo para dizer que havia um "grande problema" para as lésbicas, que estavam sendo pressionadas a "aceitar a ideia de que um pênis pode ser um órgão sexual feminino".

Eu sabia que esse seria um assunto extremamente polêmico, mas queria descobrir quão difundido o assunto era.

No fim das contas, tem sido difícil determinar a verdadeira escala do problema porque há poucas pesquisas sobre esse tópico - apenas uma que eu conheça. No entanto, as pessoas afetadas me disseram que a pressão vem de uma minoria de mulheres trans, bem como de ativistas que não são necessariamente trans.

Elas descreveram ter sido assediadas e silenciadas quando tentaram discutir o assunto abertamente. Eu mesma recebi insultos online quando tentei encontrar entrevistados usando as redes sociais.

Uma das lésbicas com quem conversei, Amy *, de 24 anos, me disse que sofreu abuso verbal de sua própria namorada, uma mulher bissexual que queria que elas fizessem um ménage à trois com uma mulher trans.

Quando Amy explicou seus motivos para não querer, sua namorada ficou com raiva.

"A primeira coisa que ela me chamou foi de transfóbica", disse Amy. "Ela imediatamente pulou para me fazer sentir culpada por não querer dormir com alguém."

Ela disse que a mulher trans em questão não havia passado por cirurgia genital, então ainda tinha um pênis.

"Sei que não há possibilidade de me sentir atraída por essa pessoa", disse Amy, que mora no sudoeste da Inglaterra e trabalha em um estúdio de impressão e design.

"Eu posso ouvir suas cordas vocais masculinas. Eu posso ver suas mandíbulas masculinas. Eu sei, sob suas roupas, há genitália masculina. Essas são realidades físicas que, como uma mulher que gosta de mulheres, você não pode simplesmente ignorar."

Amy disse que se sentiria assim mesmo se uma mulher trans tivesse se submetido a uma cirurgia genital - o que algumas optam por fazer e outras, não.

Logo depois, Amy e sua namorada terminaram.

"Lembro que ela ficou extremamente chocada e zangada e afirmou que minhas opiniões eram propaganda extremista e incitação à violência contra a comunidade trans, além de me comparar a grupos de extrema direita", disse ela.

'Eu me senti muito mal por odiar cada momento'

Outra lésbica, Chloe *, de 26 anos, disse que se sentiu tão pressionada que acabou fazendo sexo com penetração com uma mulher trans na universidade depois de explicar repetidamente que não estava interessada.

Elas viviam próximas uma da outra em residências universitárias. Chloe estava bebendo álcool e não considera que poderia ter dado o consentimento adequado.

"Eu me senti muito mal por odiar cada momento, porque a ideia é que somos atraídos por gênero em vez de sexo, e eu não senti isso, e me senti mal por me sentir assim", disse ela.

Envergonhada e constrangida, ela decidiu não contar a ninguém.

"A linguagem na época era muito 'mulheres trans são mulheres, elas são sempre mulheres, lésbicas deveriam namorar com elas'. E eu pensei, esse é o motivo de eu rejeitar essa pessoa. Isso me torna má? Terei permissão para continuar na comunidade LGBT? Ou sofrerei consequências por isso?' Então, eu realmente não contei a ninguém."

Ouvir sobre experiências como essas levou uma ativista lésbica a começar a pesquisar o assunto. Angela C. Wild é cofundadora do grupo Get The L Out, cujos membros defendem que os direitos das lésbicas estão sendo ignorados por grande parte do movimento LGBT atual.

Ela e seus colegas ativistas se manifestaram nas marchas no Reino Unido, onde enfrentaram oposição. O Orgulho (Pride) em Londres acusou o grupo de "intolerância, ignorância e ódio".

"As lésbicas ainda têm muito medo de falar porque acham que não vão acreditar nelas, porque a ideologia trans está silenciando em todos os lugares", disse ela.

Angela criou um questionário para lésbicas e o distribuiu nas redes sociais, depois publicou os resultados. Ela disse que, das 80 mulheres que responderam, 56% relataram ter sido pressionadas ou coagidas a aceitar uma mulher trans como parceira sexual.

Apesar de reconhecer que a amostra pode não ser representativa da comunidade lésbica em geral, ela acredita que foi importante capturar seus "pontos de vista e histórias".

Além de sofrer pressão para namorar ou se envolver em atividades sexuais com mulheres trans, algumas das entrevistadas relataram ter sido persuadidas com sucesso a fazê-lo.

"Achei que seria chamada de transfóbica ou que seria errado recusar uma mulher trans que queria trocar fotos nuas", escreveu uma delas. "Mulheres jovens se sentem pressionadas a dormir com mulheres trans 'para provar que não sou uma terf'."

Uma mulher relatou ter sido alvo de um grupo online. "Disseram-me que a homossexualidade não existe e devo às minhas irmãs trans desaprender minha 'confusão genital' para que possa desfrutar de deixá-las me penetrar", escreveu ela.

Uma delas comparou sair em encontros com mulheres trans à chamada terapia de conversão - a prática controversa de tentar mudar a orientação sexual de alguém.

"Eu sabia que não estava atraída, mas internalizei a ideia de que era por causa da minha 'transmisoginia' e que se eu namorasse por tempo suficiente poderia começar a me sentir atraída. Era uma terapia de conversão DIY (sigla em inglês para faça você mesmo)", escreveu ela .

Fonte: BBC BRASIL


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Luzimar Rodrigues